terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Conexão: Quem faz o frevo germinar

FONTE: AGENDA CULTURAL DO RECIFE
JORNALISTA: JACIANA SOBRINHO

As notas de tempo curto, o ritmo acelerado e melodias contagiantes misturam-se ao colorido das sombrinhas e aos passos ligeiros e hipnotizantes dos passistas. Ninguém tem dúvida: lá vem o frevo. O ritmo mais pernambucano de todos tem mais de 100 anos, incontáveis histórias e o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade concedido pela Unesco. Mesmo sendo uma tradição e guardando tantas honrarias, o frevo faz força para resistir às durezas do tempo. O rótulo de música sazonal e local que lhe atribuem é algo a ser superado, uma quimera para tantos que viveram e vivem em torno de sua existência. 

Seja de bloco, canção ou de rua, o estilo musical remete a maioria das pessoas ao carnaval, mesmo que seja gravado num disco de artistas de renome nacional - como Lenine, Elba Ramalho, Alceu Valença, Gilberto Gil e Caetano Veloso, por exemplo - diferente do samba que toca o ano inteiro em todo o Brasil, tanto em shows e festas, como nas rádios, sem necessariamente fazer referência ao carnaval, só para fazer uma breve comparação. 

Alguns músicos muito apaixonados pelo gênero seguem suas carreiras contrariando o conceito de que essa estética pertence apenas à folia de Momo, a exemplo do Maestro Forró – homenageado do Carnaval do Recife 2016, Maestro Spok e Luciano Magno. Os três circulam pelo Brasil e em outros países sempre com espetáculos nos quais o frevo é o astro maior. “Sou de uma geração que só tocava frevo quatro dias por ano. Hoje eu vivo dele, trabalho no Paço do Frevo, espaço que ajudei a idealizar, e esse lugar é uma janela para um grande sonho meu que é ver nosso ritmo conhecido no mundo todo, sem fronteiras e sem bairrismos”, afirma Spok. 

Para ele, muitos anos irão se passar até que esse sonho – que não é só dele - se torne realidade. É aí que surge uma preocupação em salvaguardar o ritmo e difundi-lo às novas gerações para que seja perpetuado. Esse trabalho vem sendo desenvolvido cuidadosamente por instituições como o Paço do Frevo, a Escola Comunitária de Música Bomba do Hemetério e a Orquestra Mirim do Galo da Madrugada. 

A Orquestra Mirim é mantida pelo Galo da Madrugada e atende crianças gratuitamente durante o ano inteiro. “Nós ensinamos música em geral, mas nosso forte é o frevo. Somos procurados por crianças que de alguma maneira conheceram o ritmo, que tem um interesse em aprender a tocar um instrumento, principalmente os de sopro que tem uma execução mais difícil quando o assunto é o frevo”, conta o professor Fábio Lima – filho do maestro Lima Neto, regente da orquestra – da escola de música do Galo. Uma dessas crianças talentosas é o aluno Pedro Artur Valença, 12 anos, que toca clarinete e bateria, além do sax que é o seu instrumento nessa orquestra. 

Residente da cidade de Goiana, Pedro começou a tocar bateria aos três anos incentivado pelo pai. Aos sete, começou a estudar clarinete na Sociedade Musical Curica, uma importante banda da cidade com 169 anos de existência. Em 2013, descobriu a Orquestra Mirim, onde também estuda, desde então. “Um dos motivos de eu vir para o Recife foi o frevo, porque eu amo esse ritmo, amo tocar isso”, conta. “Eu gosto de tocar várias coisas, mas a que mais me anima mesmo é Vassourinhas. Além de ser uma música bonita, bem trabalhada no sax, trompete e trombone, tem as variações que hoje em dia se chama de improviso, e que a gente pode brincar com isso”, acrescenta. 

O saxofonista lembra que sempre gostou de ouvir as composições dos maestros Duda e Clóvis Pereira que são mais tradicionais e recentemente conheceu o trabalho de Spok, que gosta de improvisar e isso o incentiva. Pedro conhece o ídolo pessoalmente e já tocou no palco com ele três vezes. “Lá em Goiana eu toquei duas vezes e uma vez aqui em Recife. Nessa última vez, em janeiro passado, fui assistir a um espetáculo. Ele me viu na plateia, perguntou pelo meu sax e me mandou buscá-lo. Aí, ele anunciou no palco assim: ‘vou chamar um grande artista mundial’. Já pensei que não era eu, aí, ele falou meu nome”, conta com sorriso largo. 

Formar novos ouvintes e passistas de frevo é uma das grandes dificuldades que envolvem a renovação do estilo musical. No entanto, algumas iniciativas como workshops voltados para o ritmo tem sido cada vez mais frequentes Brasil a fora. O instrumentista, arranjador e compositor Luciano Magno lembra que este ritmo é um dos gêneros musicais mais desafiadores para os músicos e fala da importância de se passar o conhecimento técnico adiante. “É uma escola virtuosa, assim como o choro e o jazz, por isso é importante trazer a informação por meio dos conceitos teóricos e também sua história para a nova geração”. 

“A gente observa que existe uma tendência à manipulação da grande mídia em torno da música de baixa qualidade e fácil consumo que chega a beirar a característica de lixo musical. O que não é estudado não pode ser compreendido”, diz o músico que lançou há dois anos um livro chamado Guitarra no Frevo (editora DPX). Luciano tem sido convidado para diversas oficinas e sente que algo está se modificando. “Tenho percebido um interesse crescente pelo frevo por jovens músicos do sudeste e sul do país. Eles me escrevem pedindo partituras e querem saber da minha agenda. Fui à Curitiba realizar uma oficina e havia uma caravana indo de São Paulo para participar do curso, imagine”, comenta ele. 

A mesma experiência tem se repetido com o Maestro Spok que há três anos encontra pessoas de diversos países que buscam aprender o frevo. “Sempre no mês de agosto viajo para a Califórnia para dar aulas num camp. Encontro gente de todo lugar querendo descobrir o ritmo, curiosos e ávidos pelo conhecimento”, conta Spok. 

Representando também essa semente que faz o frevo resistir e germinar aqui no Recife, conhecemos mais dois alunos da Orquestra Mirim, Williane Cristin, 16 anos, e Guilherme Henrique, 15 anos. Ela é a única menina do grupo e toca trompete. Tem muito orgulho do seu talento e um grande amor pelo frevo. “Eu sou pernambucana e gosto de frevo no pé. De todas as festas o carnaval é a mais legal por causa do frevo. Quero aprender a tocar ainda mais porque quanto mais eu aprender mais condições eu tenho de ensinar isso a muitas outras pessoas”, comenta. 

Já Guilherme é responsável pela percussão que contagia a todos quando se ouve um frevo. “Acho que temos que preservar a cultura do nosso país, principalmente a do nosso estado. O frevo me emociona, é lindo. Eu ouço todo tipo de música, mas esse é o meu predileto”, afirma. Tanto Pedro, quanto Williane e Guilherme sonham em ser músicos profissionais e viver dignamente com seu trabalho. Embora saibam que muitos profissionais do ramo precisam sair de Pernambuco para se estabilizar na carreira, os três comungam da mesma esperança e acreditam que esse cenário pode mudar no futuro. 

Spok, que faz consultoria para a Orquestra Frevescência do Paço do Frevo e colabora com outros trabalhos na instituição, lembra que para se alcançar a execução perfeita do frevo é preciso se dedicar ao estudo pensando em médio e longo prazo. “Acredito no trabalho de iniciativas como o Paço do Frevo, acho que estamos no caminho certo, mas creio que ainda temos muito a conquistar no que diz respeito à sistematização do frevo. Somos iniciantes nisso, mas precisamos insistir pois, uma hora alcançaremos o objetivo maior disso tudo: que a alma do frevo seja percebida e compreendida em todo o mundo”, afirma. 

O maestro faz questão ainda de ressaltar o talento das crianças da Orquestra Mirim do Galo: “Essas crianças devem ser cada mais vez estimuladas e apresentadas a verdadeira alma do frevo. São pérolas valiosas e não podem correr o risco de crescer sem se apropriar do que há de mais bonito da música pernambucana e da nossa cultura”, finaliza. 

Saiba os locais onde se pode aprender mais sobre o frevo: 

Paço do Frevo 
Praça do Arsenal da Marinha, s/n - Bairro do Recife 
Informações: 3355-9500 / www.pacodofrevo.org.br 

Orquestra Mirim do Galo 
Rua da Concórdia, 736 – Bairro de São José 
Informações: 3225.0138 

Escola Comunitária de Música Bomba do Hemetério 
Rua Pastor Benoby Carvalho de Sousa, 173-A - Bomba do Hemetério

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