terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Agenda Cultural do Recife entrevista Maestro Forró

Por: Anax Botelho 
Fotos: Eric Gomes/Divulgação 


A festa de momo há anos ganhou um artista e personagem cativante no Recife e em todo Pernambuco, o Maestro Forró. No comando da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, o músico é responsável por releituras de clássicos do frevo, renovação e apresentações marcantes para todos os foliões. Este ano, não é à tôa, é um dos homenageados do Carnaval do Recife e, nesta edição da Agenda Cultural do Recife, fala um pouco da sua história. 

Agenda Cultural: Como despertou o seu interesse pela música? 

Maestro Forró: Dentro da família. Com cinco anos, comecei a me apresentar. Tocava zabumba ao lado do meu pai, Zé Amâncio do Coco, que é de Aliança. Ele é a maior referência em Coco de Roda da Bomba do Hemetério, mas não se limita só a esse ritmo. Carrega em seu universo referências de diversos ritmos populares. Meu pai é uma das influências mais fortes em minha formação. Trouxe toda a diversidade cultural da Zona da Mata, com seus maracatus, cirandas, cavalos marinhos e afins. 
Em casa eu tinha meu pai e, nas ruas da Bomba, via os ensaios e desfiles dos maracatus Nação Elefante e Leão Coroado, além das apresentações da Tribo Canindé (caboclinho), do Reisado Imperial e outros grupos populares. Isso também mexia muito comigo. 
Anos depois, meu irmão, Givanildo Amâncio, o Maestro Gil, tornou-se pianista. Ele se foi meu primeiro contato com a música erudita. Pouco depois, comecei as primeiras aulas da linguagem acadêmica musical com o Professor José do Nascimento Tenório, no Colégio Dom Vital, em Casa Amarela, onde fiz parte da banda de música. 
Aí, com base popular e erudita, fui percebendo que é possível unir essas suas vertentes em um tipo de música plural e desburocratizada. Hoje, trabalho para fazer uma música acessível a todos os públicos. 

AC: Qual é a origem do seu nome artístico? 

MF: Nos anos 1980, a lambada era o ritmo do momento. Mas eu escutava muito forró por conta do meu pai. Em uma festa de São João na escola de música, meus colegas pediam para cantar uma lambada atrás da outra. Na minha vez de cantar, toquei composições de forrozeiros como Azulão, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O professor Tenório se impressionou com o repertório e passou a me chamar de Forró. Aí pegou e nunca mais saiu. 

AC: Em toda sua história na música, quais fatos você considera inesquecíveis? 

MF: Ah, tem muita coisa! Muita mesmo... mas a homenagem que eu recebi, em 2010, do Homem da Meia-Noite, foi muito linda. Naquele ano, fui homenageado no desfile dos Bonecos Gigantes, em Olinda. Uma bela hora, surge o Homem da Meia-Noite. Ele nunca sai de dia, entende? Isso me emocionou. Ano passado, recebi outra homenagem dele [Homem da Meia-Noite], mas desta vez do bloco dele mesmo. Regi a saída da Orquestra. É um patrimônio cultural do Estado que reconhece meu trabalho, fiquei feliz com essa generosidade. 

Dois trabalhos que fiz com o Maracatu Nação Pernambuco, antes de criar a Orquestra, também foram inesquecíveis. Trabalhei no espetáculo Uma Noite Brasileira em Paris, em temporada de três meses na casa de espetáculos Divan du Monde, no ano 2000; e dois anos depois, como arranjador e músico/instrumentista em turnê de três meses na China. Foram muito fortes porque foram trabalhos maravilhosos executados durante um período razoável no exterior, em meio a culturas diferentes. Muito bom. 
Não posso deixar de citar, também, os momentos em que recebemos, eu e a Orquestra, a medalha Leão do Norte (2011) e a Ordem do Mérito Cultural (2012). Essa última foi entregue pela presidenta Dilma. Meu amor pela cultura proporcionou essas experiências. Nunca vou esquecer. 

AC: O bairro da Bomba do Hemetério é determinante na sua produção musical? 

MF: Sem sombra de dúvida. A riqueza cultural da Bomba é inegável. Como fui criado lá, minhas influências, diretas e indiretas, passam pela cultura viva do bairro. Temos caboclinhos, troças, maracatus, reisados, bois, escolas de samba, urso, afoxé, clube de frevo, tribo de índios, quadrilhas juninas e bonecos. Não tem como ser diferente. 

AC: Sua performance nas apresentações é um dos destaques, o que você sente na hora? 

MF: Cada apresentação, na verdade, começa bem antes de chegarmos ao palco. Eu diria que o início de tudo vem do processo de criação, buscando o melhor possível para o público. Nesse caminho, vem a expectativa de tudo dar certo, de poder interagir com as pessoas, levando e recebendo energia. Esse caldeirão de emoções é indescritível! É tão maravilhoso que se transforma no elemento vital que para que eu, assim como as demais pessoas que trabalham com cultura, acorde, trabalhe e siga frente amando o que faz. 

AC: Como você definiria sua música? 

MF: Olha, minha música é divertida, animada... ela é resultado de um esforço enorme, meu e da Orquestra. O trabalho é feito com base em quatro pilares: pesquisa, manutenção, releitura e interação cultural. Isso veio fortalecer a qualidade técnica e a espontaneidade a execução musical da Orquestra. Quero desmistificar e desburocratizar a figura dos tradicionais maestros. Minha ideia é “eruditizar o popular e de popularizar o erudito”. Transfiro isso para a Orquestra. Os músicos são muito parceiros, muito dedicados ao trabalho, e isso passa para o resultado final. O público gosta do que fazemos, o que indica como estamos azeitados e no caminho certo. Isso me deixa feliz. 

AC: Você tem uma carreira internacional bastante consolidada, como em Cuba, por exemplo. O que você gosta de mostrar em outros países? 

MF: Gosto de levar nossa cultura. Em Cuba, estive ano passado para gravar a segunda temporada do programa Andante, no qual estabeleço diálogo entre a cultura desses locais e a de Pernambuco. Fiquei impressionado. Recebi, pouco depois, um convite para participar do Festival Del Caribe, que é um dos maiores da América Central. Toquei frevo nas apresentações e dei oficinas de cultura popular a músicos experientes e jovens de lá. Mas nosso trabalho já chegou à Europa e aos Estados Unidos, onde nos apresentamos com impressionante sinergia com o público. Sempre que vou para outro estado ou país, é para mostrar o que Pernambuco produz de melhor. 

AC: 2016 já começa com tudo para você, sendo homenageado do Carnaval do Recife, mas o que você espera do ano? O que você tem de novidade para apresentar? 

MF: Planos, tenho muitos. Posso adiantar que quero lançar a segunda temporada do programa Andante no segundo semestre. Estou trabalhando para lançar um CD e também para sair em turnê Brasil afora com o projeto Fole Assoprado, comemorando uma década desse trabalho. O Fole Assoprado consiste no uso dos instrumentos de sopro para reproduzir o som da sanfona, executando forrós, xotes e baiões de uma forma totalmente particular. Mas ainda estamos negociando financiamento e produção dessas ações.

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